Doppler da Artéria Oftálmica em Obstetrícia

O Doppler da artéria oftálmica (OA Doppler) tem sido explorado em obstetrícia como ferramenta não invasiva para avaliação do risco de pré-eclâmpsia e complicações hipertensivas da gestação. Diferente do Doppler uterino, que reflete a resistência útero-placentária, a artéria oftálmica reflete a hemodinâmica cerebral materna e a adaptação vascular frente à sobrecarga gestacional.

Aqui vai um panorama atualizado das principais evidências científicas:


🔹 Contexto Fisiopatológico

  • A gestação normal exige adaptação da circulação cerebral materna.
  • Na pré-eclâmpsia e em síndromes hipertensivas graves, há redução da complacência vascular cerebral → risco aumentado de encefalopatia hipertensiva, eclâmpsia, AVC.
  • O Doppler da artéria oftálmica é usado como uma “janela” acessível para avaliar essa repercussão, já que sua resposta reflete a hemodinâmica intracraniana.

🔹 Principais Parâmetros Usados

  1. PSV (peak systolic velocity) = velocidade sistólica máxima.
  2. EDV (end-diastolic velocity) = velocidade diastólica final.
  3. IP (índice de pulsatilidade) e IR (índice de resistência).
  4. Razão PSV da artéria oftálmica / artéria central da retina ou OA-PSV ratio (usada em modelos de predição).

🔹 Evidências Científicas

1. Predição de Pré-Eclâmpsia

  • Estudos mostram que aumento da velocidade sistólica de pico (PSV) e redução de IR/IP na artéria oftálmica estão associados à diminuição da resistência cerebrovascular, que ocorre precocemente em gestantes que evoluirão com pré-eclâmpsia.
  • Revisões sistemáticas: OA Doppler isolado tem boa sensibilidade, mas baixa especificidade. Quando associado a biomarcadores (PLGF, sFLT-1) e Doppler uterino, melhora a acurácia preditiva.

2. Monitorização de Gestantes com Pré-Eclâmpsia

  • Em pré-eclâmpsia grave, há acentuada redução do IP da artéria oftálmica, refletindo vasodilatação cerebral.
  • Essa alteração é correlacionada com risco de convulsão/eclâmpsia.
  • Pode ser útil na estratificação de gravidade em ambientes de terapia intensiva obstétrica.

3. Comparação com Doppler Uterino

  • O Doppler uterino reflete resistência útero-placentária.
  • O Doppler da artéria oftálmica reflete adaptação hemodinâmica materna central.
  • Assim, eles são complementares, e não substitutivos.

4. Meta-análises e Consensos

  • Não há consenso para uso rotineiro em rastreamento populacional, mas há evidências crescentes para uso em pesquisa clínica, gestantes de alto risco e em protocolos combinados.
  • FIGO e ISUOG reconhecem que o OA Doppler é promissor, mas ainda considerado experimental em rastreamento universal.
  • Seu maior valor está em cenários de alto risco e investigação científica.

🔹 Em Resumo

  • Útil em pré-eclâmpsia: valores alterados refletem disfunção cerebral materna.
  • Promissor como marcador precoce, mas não recomendado isoladamente.
  • Melhora a performance preditiva quando combinado com uterina + biomarcadores (PLGF, sFLT-1, PAPP-A).
  • Aplicação clínica atual:
    • Avaliação complementar em pesquisa ou em protocolos de alto risco.
    • Monitorização em pré-eclâmpsia grave, ajudando a estimar risco de complicações neurológicas.

Abaixo segue um excelente vídeo da escolar caliper de ultrassonografia com duas aulas: uma da Dra. Angélica Lemos Debs Diniz e outra com Dr. Manoel Sarno.

Passo-a-passo prático para ultrassonografistas

  • Utiliza-se o transdutor linear
  • Colocar 1 gota de gel na pálpebra da paciente
  • Insonar com a caixa do Doppler colorido na região medial ao nervo óptico
  • Geralmente a artéria oftálmica está a 3cm de profundidade da superfície
  • Índice Mecânico tem que ser menor que 1 para não lesar a retina
  • O traçado da artéria oftálmica apresenta um pico sistólico, uma desaceleração (na sístole) e um novo pico sistólico (ainda na sístole), e um ponto inferior que representa o fechamento da válvula aórtica. Diferenciar a artéria oftálmica das artérias ciliares, estas últimas possuem pico sistólico baixo.
  • O pico sistólico da artéria oftálmica é de pelo menos 20cm/s

Diferenciar a artéria oftálmica das artérias ciliares, estas últimas possuem pico sistólico baixo.


O primeiro artigo sobre Doppler da Artéria Oftálmica e Pré-eclâmpsia, foi em 1993 um estudo chinês, segue o resumo do artigo.

Monitoramento por Doppler Colorido da Artéria Oftálmica em Gestantes com Pré-eclâmpsia

Autores: Shen Yawei, Shi Xiaoli, Wang Zhimei, Hu Shengyun
Instituição: Hospital da Força Aérea de Tianjin, China

Introdução

A pré-eclâmpsia é uma complicação comum da gravidez, associada a hipertensão, proteinúria e lesões de órgãos-alvo. Avaliar alterações hemodinâmicas maternas é fundamental para o manejo clínico. A artéria oftálmica, ramo inicial da carótida interna, compartilha características com a circulação cerebral e pode ser avaliada por Doppler colorido de forma não invasiva.

Métodos

Foram estudadas gestantes com pré-eclâmpsia (classificadas em leve e grave) e gestantes normotensas como controle. O exame de Doppler colorido da artéria oftálmica mediu:

  • Pico sistólico (PSV),
  • Velocidade diastólica final (EDV),
  • Índice de resistência (RI),
  • Índice de pulsatilidade (PI),
  • Razão PSV2/PSV1.

Os resultados foram comparados entre os grupos.

Resultados

  • Pré-eclâmpsia leve: redução discreta de PI e RI, aumento moderado da razão PSV2/PSV1.
  • Pré-eclâmpsia grave: redução acentuada de PI e RI, aumento significativo da razão PSV2/PSV1.
  • Diferenças foram estatisticamente significativas em relação ao grupo controle.
  • A magnitude das alterações correlacionou-se à gravidade da doença.

Discussão

As gestantes com pré-eclâmpsia apresentam alterações características na hemodinâmica cerebral refletidas no Doppler da artéria oftálmica. A redução de PI/RI e o aumento da razão PSV2/PSV1 podem ser usados como marcadores indiretos da gravidade.

Conclusão

O Doppler da artéria oftálmica é simples, reprodutível e não invasivo. Pode ser utilizado como método auxiliar na avaliação e acompanhamento da pré-eclâmpsia, ajudando na estratificação de risco.

Fonte : Shen YW. [Clinical significance of changes in ophthalmic arterial flow in pregnancy induced hypertension monitored by color Doppler imaging]. Zhonghua Fu Chan Ke Za Zhi. 1993 Jul;28(7):392-4, 440. Chinese. PMID: 8287720.

Disponível em https://rs.yiigle.com/cmaid/967051